Filhos das outras Mães
Hoje venho questionar a imagem popularizada da perfeição das Mães e sobejamente descrita na literatura.
Todos os que têm Mãe, daquelas com M maiúsculo, só podem ser gratos à força do Amor, um Amor intemporal, que ultrapassa todas as dimensões para além da nossa compreensão. Mães assim, são tudo: carinho, cuidado, compreensão, estrutura, amparo, mesmo com todas as falhas inerentes à sua condição humana, que não coexiste com a perfeição.
Hoje não é nesses filhos que penso. Hoje vou dedicar-me aos outros filhos, àqueles que não tiveram a Versão Universal que consta nas Odes às Mães.
E são muitos esses filhos: Filhos de mães incapazes de amar. Sim, as Mães são humanas e podem ter todos os desafios que os humanos transportam. E elas têm-nos. Todo o tipo de desequilíbrios.
• Mães de filhos indesejados.
• Mães abusadoras, que maltratam física e/ou psicologicamente e emocionalmente os seus filhos, por vezes até sexualmente.
• Mães manipuladoras e controladoras.
• Mães castradoras.
• Mães narcisistas.
• Mães egoístas, que confundem apego com amor.
• Mães vampiras, que sugam a energia dos filhos.
• Mães que espelham as suas falhas e frustrações nos seus filhos e neles descarregam as suas agruras.
Hoje escrevo por esses filhos.
Não se trata de julgar ou condenar estas Mães, muito menos alimentar ou justificar qualquer tipo de ressentimento para com elas.
Acredito que todas e cada uma, no seu nível de entendimento, dentro de todas as limitações e condicionamentos próprias da condição humana, faz o que consegue. Trata-se sim de reconhecer que há filhos abandonados (mesmo com a presença física dos progenitores), rejeitados, humilhados, abusados. Todos tentam ultrapassar o melhor que conseguem. Muitos desses filhos repetirão o padrão a que foram sujeitos e cuja origem se perde demasiadas vezes ao longo das gerações ancestrais. Foi o que aprenderam e se foi perpetuando.
Esses filhos carregam as suas dores, as quais afetam transversalmente os vários aspectos da sua vida. Revelam-se sob a forma de falta de autoestima, sensação muitas vezes inexplicável de abandono e solidão, sentimentos de inferioridade e de falta de merecimento, raiva, revolta, mágoa, todo o tipo de desamor...
Hoje é a esses filhos que me dirijo.
Porque se sentem menos que os outros por não conseguirem colocar os progenitores num pedestal; ou porque se chegam a sentir culpados por não terem conseguido corresponder ao padrão instituído dos filhos que veneram a Mãe; ou que simplesmente sentem mágoa, revolta, raiva, ressentimento, medo ou qualquer outro tipo de sentimento semelhante pela pessoa que esperavam ter sido o seu pilar edificante, mas que acabou por ser destruturante.
Hoje é para esses filhos que vai a minha atenção, a minha compaixão, mas sobretudo a minha palavra de esperança e encorajamento.
Ultrapassar a falta de estrutura que uma mãe ou a sua ausência real ou conceptual pode causar, é um desafio de vida.
É possível fazê-lo? Sim. E o resultado é libertador, empoderador.
Tal desafio precisa primeiro ser aceite por cada um, mas a sua superação passo a passo, com resolução bem finalizada, é um trampolim fantástico para uma poderosa transformação interior.
É possível transmutar essas dores em aprendizagens.
É possível transmutar as mágoas em serenidade, em paz.
É possível encontrar todo o Amor que cada um necessita – bem dentro do coração de cada um de nós.
Pegar em cada fragilidade e extrair daí uma valiosa aprendizagem, uma sabedoria que gera toda uma nova forma de ser e estar interior. Um milagre da fénix, que renasce das cinzas, cada vez mais forte, mais sábia, mais bela. E o que se passa dentro, depressa se reflete no exterior, na vida.
Fazer esse caminho, é uma escolha individual – ninguém a pode fazer por ninguém. Contudo, significa a tomada das rédeas da vida. Significa que se tomou a decisão de não mais deixar que as acções de outrem continuem a ser nossas condicionantes.
Ouse tomar esse poder na sua mão, resista, persista e à medida que vai ultrapassando cada obstáculo, subindo cada degrau, perceba que está a caminhar para fora do nevoeiro, rumo ao destino que você pode conscientemente escolher para si.
E talvez os milagres não acabem por aí. A verdadeira transformação interrompe ciclos viciosos que passaram de geração em geração e respaldar-se-à positivamente na sua descendência. A alteração da dor por compaixão, cura – cura o próprio e irradia cura para os que lhe estão mais próximos.
Pelo estado em que o mundo hoje se encontra, estou em crer que muitos dos seus habitantes, são precisamente filhos dessas outras mães. Porque Mães equilibradas e amorosas, transmitem Amor aos filhos. E quando há Amor não há lugar a intolerância, a disputas, conflitos.
É responsabilidade de cada um de nós assumir conscientemente as consequências das nossas decisões – sem esquecer que não decidir é também uma decisão, e que a atribuição de culpas a terceiros também se prende com uma decisão - a de os deixar interferir nos acontecimentos da nossa história pessoal.
Sandra Julio
Hipnoterapeuta e Terapeuta de Reiki Meditações